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Quem são os analistas que estão detrás das melhores ideias de investimento em Wall Street? A edição de 21 de março do “Wall Street Journal” fazia a pergunta e deixava a resposta, sob a forma de uma lista de 14 nomes que tinham em comum a proeza de se terem revelado certeiros nas recomendações de compra. Um único analista europeu figurava na lista: Hugo Roque, 32 anos, gestor de ativos da Casa de Investimentos (CI), de Braga. Hugo é um dos oito mil analistas financeiros que regularmente colocam as suas apreciações na rede SumZero, a maior comunidade mundial de partilha de análises bolsistas. O “Wall Street Journal” fez as contas e verificou que, no consolidado dos últimos 18 meses, a carteira de Hugo registara uma valorização de 46%. O seudesempenho só foi superado por três americanos. Kyle Detwiler, o vencedor, conseguiu 58%.

Sorte de principiante? No mercado de capitais sorte é a combinação de talento com oportunidade e Hugo Roque tem cara de menino, mas é já muito rodado. Após o curso na Faculdade de Economia do Porto e uma curta experiência numa empresa de software financeiro, abraçou em 2005 na CI uma carreira que estimulava a sua vocação. Estudioso, Hugo já fez dois dos três primeiros níveis do programa Chartered Financial Analyst (CFA), a certificação internacional mais cobiçada pelos gestores de investimentos.

A distinção “foi uma surpresa, não estava nada à espera”, confessa Hugo. Mas,“é um estímulo para a nossa equipa e tem o mérito de incorporar também o resultado das avaliações sobre a qualidade das análises publicadas”. O segredo reside “no método de investimento em valor adotado na Casa de Investimentos”. Esperar que os ativos de excelência estejam a desconto no mercado, pagando um preço muito inferior ao seu valor intrínseco. “Comprar um euro por 60 cêntimos”, eis o lema de Hugo. O método exige uma dose de paciência e duas de conhecimento profundo sobre as empresas para que se “compre muito valor por pouco dinheiro”.

Johnson & Johnson

O caso da Johnson & Johnson é exemplar. Com vendas em máximos (50milhões euros), um balanço com pouca dívida (30% do capital próprio), um portefólio de produtos robusto e dividendos sempre a subir, a multinacional sofreu danos de imagem e da distração dos investidores. Há um ano, cotava nos 50 euros , agora está nos 63 euros (+23%). Desde a primeira recomendação da CI a J&J valorizou 49%, incluindo dividendos.

A Sonae SGPS foi a única empresa portuguesa que Hugo recomendou no SumZero, numa altura em que a sua cotação correspondia apenas à soma do valor da sua participação na Sonaecom e Sonae Sierra, como se o negócio da distribuição valesse zero. Com a valorização registada, deixou de figurar nas recomendações. A Tesco,que num só dia caiu 18% por ter desiludido os investidores com resultados mais fracos do que o esperado, foi outra aposta da casa de Braga que verificou que os seus fundamentais não tinham sido afetados.

“Acreditamos em empresas que se distinguem dos concorrentes e tenham vantagens competitivas, desde que a sua cotação revele uma grande margem de progressão”, explica Hugo Roque. Pfizer, Wells Fargo, General Electric, Cisco Systems ou Bank of America são exemplos de recomendações que se revelaram certeiras e que permanecem, apesar das valorizações registadas, na carteira da CI. Na banca, Hugo compara a cotação com o valor contabilístico. No caso português, o BES é o preferido. A cotação (0,73 euros) é 62% do valor contabilístico.

Nesta fase de turbulência em que acabaram as aplicações seguras, Hugo acredita que é no mercado acionista que se encontram as melhores soluções de investimento. É preciso pesquisar, encontrar as pechinchas, antecipando os movimentos dos mercados.

Um dos critérios é identificar as grandes empresas (EDP, Tesco, Total, etc.) com um histórico de dividendos generosos que superam a rentabilidade dos depósitos bancários e das obrigações.

Decálogo de analista

Um analista financeiro “deve combinar o ceticismo de quem trabalha com uma folgada margem de segurança, com a disciplina de quem não se comove com as oscilações do mercado”, adotando “uma visão persistente mas não profética”. No seu decálogo de atuação, os principais mandamentos dizem que se deve conhecer o histórico da empresa, perceber bem o que ela faz, quais as vantagens e traços distintivos relativamente aos seus concorrentes, preferir empresas geridas por gente capaz e honesta, com balanços conservadores e pouca dívida e que transacionem a preço que lhe conceda uma forte margem de progressão. É essencial ter nervos de aço e controlar os impulsos para “evitar o comportamento de rebanho”. É preciso ter coragem para “remar contra a maré e estar comprador num momento em que há um movimento geral de venda”.