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O número acima é um dos milhares que pode observar, num dia, se consultar o site do fundo do petróleo da Noruega em www.nbim.no. Os últimos 6 dígitos do número que aparece no ecrã do computador são impossíveis de escrever sem que tenham já mudado várias vezes ao segundo e refletem o valor de mercado dos ativos do maior fundo soberano do mundo.

A Noruega descobriu o primeiro campo de petróleo em 1969. O Fundo de Pensões Global do Governo Norueguês, como é oficialmente conhecido, foi formalmente criado em 1990 com o nome Fundo do Petróleo e com o objetivo de gerir a riqueza do petróleo norueguês de uma forma sustentável e de longo prazo. A ideia original por detrás da sua criação tinha duas vertentes: em primeiro lugar, o Fundo serviria como um veículo de poupança de longo prazo que procurasse garantir o rendimento de um recurso não renovável através da diversificação num vasto portfólio de títulos internacionais. Existe uma obrigação ética de partilhar a riqueza dos recursos naturais, desenvolvidos ao longo de milhões de anos, com as gerações futuras.

Em segundo lugar, o Fundo seria um mecanismo que isolaria a economia norueguesa da chamada “doença holandesa” ou a “maldição dos recursos naturais”. A experiência de outros países demonstra que o súbito aumento na riqueza de recursos naturais pode inflacionar os preços domésticos e as taxas de câmbio, fazer diminuir a competitividade internacional e resultar num processo de desindustrialização. Uma outra consequência potencial é que este enorme recurso de capital pode desincentivar os cidadãos de trabalhar e desenvolver o seu potencial humano.

Disciplina Fiscal

O Fundo incentiva a disciplina fiscal no orçamento do governo. Em tempos de abundância, menos de 4% do Fundo é gasto; em tempos de crise, mais de 4% é gasto para contrabalançar o ciclo económico. O compromisso de longo prazo à regra dos 4% impede o governo de exagerar nos gastos. Tendo em conta a dimensão do Fundo, mesmo este nível de gastos pode ser excessivo e o banco central da Noruega tem vindo a advertir que o gasto de 4% pode vir a tornar-se muito grande.

O mandato do Fundo é maximizar o poder de compra internacional, tendo em conta níveis aceitáveis de risco. O Ministério das Finanças é responsável pela sua gestão de longo prazo. O Norges Bank Investment Management (NBIM) – uma unidade autónoma dentro do Norges Bank, o banco central – gere os ativos de acordo com as linhas mestras traçadas pelo Ministério. O NBIM gere também as reservas de moeda estrangeira do banco central.

Transparência

No site pode ler-se “gerimos o fundo em nome do povo norueguês - atual e futuras gerações. Dependemos da confiança para cumprir com a nossa missão, por isso procuramos ser um gestor de investimentos profissional, transparente e responsável”.

A transparência é sublinhada pela extensa lista de publicações disponíveis nos websites do Ministério das Finanças e do NBIM e os retornos do Fundo são publicados mensalmente. O Ministério fornece ao Parlamento relatórios detalhados que incluem informação acerca dos retornos no investimento, estratégia e implementação das regras éticas. O Norges Bank publica relatórios financeiros trimestrais e uma listagem anual de todos os seus investimentos, incluindo a dimensão e poder de voto. De facto, o NBIM fornece muito mais informação do que qualquer outro fundo soberano ou fundo de pensões do mundo.

O efeito bola de neve

A primeira transferência de fundos verificou-se em 1996, na altura o equivalente a 300 milhões de dólares. Hoje, dia 25 de novembro de 2014, o fundo tem um valor de mercado de cerca de 872 mil milhões de dólares e o seu beneficiário final é o povo da Noruega. A política de investimentos foi caminhando no sentido de uma maior exposição às ações: até 1998, o fundo investia apenas em obrigações governamentais.

Em 25 de junho deste ano, comunicaram que a alocação a ações passaria a ser de 70%, reforçando assim os investimentos na classe de ativos que melhor remunera os investidores.

O horizonte de investimento alargado permite implementar uma estratégia de investimento de longo prazo e torna o Fundo mais tolerante à volatilidade de retornos e a perdas potenciais de curto prazo do que a maioria dos investidores. Isto permite-lhe focar-se preferencialmente em investimentos em ações.

Estratégia de Investimento

A estratégia é baseada em várias convicções: a convicção de que o mercado é essencialmente eficiente; um compromisso na diversificação; um foco nas ações; um benchmark claramente articulado; seleção e monitorização cuidada dos gestores de ativos (internos e externos ao NBIM), especialmente para ativos menos líquidos; e um compromisso no investimento responsável. Este último é fundamental no sistema de valores do Fundo. O Fundo deve ser gerido com vista a conseguir bons retornos para o benefício das gerações futuras e deverá haver respeito pelos direitos fundamentais de quem é afetado pelas empresas em que o Fundo investe. Estas atividades refletem a convicção de que, dado o longo horizonte de investimento, ter em conta estes fatores conduzirá a resultados financeiros mais sustentáveis a longo prazo.

Performance/Escrutínio

O comportamento e performance dos fundos soberanos têm vindo a ser alvo de escrutínio especialmente desde a crise financeira de 2008. As variações da coroa norueguesa não têm impacto no poder de compra internacional do Fundo e o Fundo não faz a cobertura de risco para as variações na sua moeda. Desta forma, os retornos são apresentados numa moeda internacional, baseada na combinação ponderada de 35 moedas.

Em várias ocasiões, a gestão do fundo foi questionada pelo povo, sobretudo como consequência de correções substanciais nos preços das obrigações em 2007 e das ações em 2008. O fundo caiu globalmente cerca de 24%. Apesar da enorme pressão pública, o ministério da Finanças e os gestores do fundo mantiveram-se focados no valor desses investimentos e em 2010 o valor do fundo era já consideravelmente superior a 2008.

Uma comunicação clara das performances passadas, particularmente em períodos menos positivos, deverá ajudar. O público recordar-se-á durante a próxima crise que dar atenção aos pedidos populares para fechar posições em 2008 teria resultados muito negativos. Desde a sua incepção, o Fundo tem vindo a aumentar o seu perfil de risco e, até esta altura, o país beneficiou desta rejeição de reações de curto prazo a performances adversas.

No final de 2013 o fundo tinha a seguinte composição: 61,7% investido em ações (com retorno de 26,3%), 37,3% investido em obrigações (com rentabilidade de 0,1%) e 1,0% investido em imobiliário (com um retorno de 11,8%). Globalmente, o fundo obteve uma remuneração anual de 15,9%.

Em julho passado, os gestores do fundo comunicaram ter sido aumentado o investimento em ações para 70% dos ativos do fundo.

Pode o fundo de petróleo servir realmente como modelo para investidores particulares?

O Modelo Norueguês e a filosofia que lhe está subjacente, é adequado para a maioria dos investidores. Enquanto que o Modelo da Universidade de Yale, investe em ativos menos líquidos e sem cotação pública observável, o Modelo Norueguês tem assentado sobretudo na estratégia também conhecida por 60/40 e que permite alocar 60% a ações cotadas em todo o mundo e 40% em obrigações:

1- a performance histórica dos investimentos em ações, a classe de ativos que melhor remunerou o capital nos últimos 116 anos,

2- o custo mais baixo de investir em ativos cotados em bolsas organizadas e com grande liquidez,

3- a menor probabilidade de haver problemas de “agência” quando os ativos têm um valor no mercado todos os dias, reflectindo com total transparência perdas e ganhos. Estes ativos são custodiados em instituições financeiras sólidas e todos os dias, a qualquer hora, é possível saber o seu valor e transformá-los em dinheiro.

Da mesma forma que é transparente para 5 milhões de Noruegueses, é-o para investidores particulares. Devidamente informados e conhecedores dos verdadeiros riscos associados com estes investimentos, os investidores podem colher os seus extraordinários benefícios: desde logo, retornos acima da média, maior diversificação e grande liquidez que permite, no fim de contas, o acesso imediato ao dinheiro se, efectivamente, ele fizer falta.

Em 2011, o Ministro das Finanças norueguês realçou a importância do Fundo numa apresentação ao Parlamento: “os resultados dos últimos anos mostram que as enormes perdas incorridas durante a crise financeira foram mais que compensadas pelos ganhos conseguidos na subida de mercado subsequente. Uma razão importante foi o facto de nos termos mantido fiéis a uma estratégia de longo prazo”. O Ministro sublinha o facto de não bastar seguir a estratégia certa, é essencial mantermo-nos fiéis a ela durante os momentos maus.

Por isso, o verdadeiro Investidor em Valor não escolhe estar dentro ou fora do mercado nesta ou naquela altura. Para colher retornos acima da média no mercado financeiro, é preciso ter assento permanente. O resultado está à vista.