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No mundo do investimento tudo o que é óbvio é questionável e nada do que é importante é intuitivo.

Incluo, com frequência, nos meus artigos, citações famosas que resistem à passagem do tempo exactamente porque são relevantes, eloquentes e cheias de sabedoria.

De Santayana, “a história repete-se e esquecer o passado é estar condenado a repeti-lo” . De Winston Churchil, “quanto mais longe no passado olhares, mais longe no futuro conseguirás ver”. De Mark Twain, “a história não se repete, rima”. De que serve a história? No fim de contas, a história é passado.

Li, por estes dias, mais uma carta a investidores digna de nota, desta vez, de Howard Marks, com referências que também já aqui escrevi: “A verdade é que a história pode ser uma grande ajuda... no investimento e na vida. Na quinta década da minha carreira como investidor, sinto que muita da minha capacidade de adicionar valor tem origem na história que testemunhei e no significado que dela consegui extrair”.

Como Twain disse, os eventos da história não se repetem exactamente. Raramente se passa a mesma coisa uma e outra vez. No mundo dos investimentos, por exemplo, a duração e amplitude das flutuações raramente são as mesmas de ciclo para ciclo. Mas também, como Twain disse, a história rima. São aquilo a que eu chamo tendências ou padrões comportamentais que apresentam as lições importantes.

A tendência dos investidores em ignorar ou esquecer o passado é notável. Assim como o hábito de sucumbir à emoção. As pessoas esquecem-se, particularmente, da natureza cíclica das coisas, extrapolam até ao excesso as tendências passadas e ignoram a probabilidade da reversão para a média.

A Morte das Acções”, um artigo publicado na BusinessWeek em Agosto de 1979 sinalizando uma mudança tectónica no investimento, é um bom exemplo. A base era a seguinte:

1. Sete milhões de accionistas tinham abandonado o mercado de acções desde 1970,

2. As instituições que geriam fundos de pensões foram autorizadas a investir noutros activos que não acções,

3. Os fundos de investimento, até então com cerca de 80% investido em acções, estavam abaixo de 50%,

4. Poucas empresas encontravam comprador para as suas acções.

O artigo era tão negativo que, quem pensasse só por si, diria: isto já não pode piorar mais. A verdade é que marcou a mudança: o início do maior bull market da história.

Yogi” Berra, famoso jogador de basebol dos New Youk Yankees, ficou também na história por proferir frases sem lógica: “não chega ao fim enquanto não acaba”, “quando chegares a uma bifurcação, segue-a”, “deja vu outra vez” ou “na verdade, eu não disse tudo aquilo que disse”

O autor deste artigo “A morte das Acções” não lhe ficava atrás. No artigo justificava o título dizendo: “…com o preço do imobiliário sempre a subir… a terra é uma garantia contra perdas” ou “para os investidores… os preços baixos das acções continuam a ser um desincentivo ao investimento” e “seria necessário um bull market sustentado durante um par de anos para atrair uma base alargada de investidores e restaurar a confiança”.

Ora, quando os preços estão tão baixos, as acções podem começar a subir sem a ajuda de um bull market. Da mesma forma, quando as acções estão caras, os preços podem ruir sob o seu próprio peso.

A conclusão é simples: o bom senso não é comum. A multidão está invariavelmente errada nos extremos do mercado. No mundo do investimento, tudo o que é óbvio é questionável e tudo o que é importante é contra-intuitivo. Os investidores provam repetidamente que conseguem ser menos lógicos que Yogi.

Quando os preços sobem para níveis além do céu, quer no mercado de acções ou imobiliário ou outro, reina o optimismo… Do mesmo modo, quando os preços caem para níveis tão baixos que as empresas transaccionam a 60% do valor de substituição dos activos subjacentes e o pessimismo está em máximos, é comum aparecer um novo paradigma: as velhas regras já não se aplicam.

O que, consistentemente, fornece as fundações para esta insistência de que o “jogo” mudou para sempre? As quatro palavras mais perigosas do mundo do investimento: DESTA VEZ É DIFERENTE.