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*Artigo escrito para o Wall Street Journal por Warren Buffett e Jamie Dimon e publicado a 13 de junho 2018, traduzido por Casa de Investimentos.

Cada geração de americanos tem o dever de deixar à geração seguinte uma sociedade mais forte e mais próspera do que aquela que encontrou. Os maiores feitos da nação tiveram sempre origem em investimentos de longo prazo. Tanto nas decisões políticas como nas empresariais, uma estratégia de longo prazo eficaz impulsiona o crescimento económico e o aumento do emprego.

Para as empresas cotadas, estes mesmos princípios também são verdadeiros. É por isso que hoje, juntamente com a Business Roundtable, uma associação de quase 200 CEO’s de grandes empresas americanas, apelamos a todas as empresas cotadas que considerem acabar com a prática de emitir estimativas de lucros por ação trimestrais. Na nossa experiência, as estimativas de resultados trimestrais levam frequentemente a um foco muito pouco saudável nos lucros de curto prazo em detrimento da estratégia de longo prazo, do crescimento e da sustentabilidade.

Uma vez que negócios bem geridos e governados são o motor da economia americana, um bom governo das sociedades é imperativo. Embora as empresas cotadas sejam apenas 4300 dos 28 milhões de negócios da América, elas representam um terço de todos os empregos do sector privado e metade de todo o investimento de capital. As empresas cotadas americanas impulsionam a criação de emprego, a oportunidade e o crescimento económico.

O anúncio de hoje é consequência dos Princípios Sensatos de Governo das Sociedades que os líderes empresariais desenvolveram em 2016. Estes princípios reconhecem que os mercados financeiros se tornaram demasiado focados no curto prazo. As estimativas de lucros trimestrais são um dos principais motores desta tendência e contribuem para o afastamento dos investimentos de longo prazo.

As empresas adiam frequentemente o investimento em tecnologia, em investigação e desenvolvimento e na contratação de recursos humanos. Tudo para cumprir com as previsões de resultados trimestrais que podem ser afetados por fatores fora do controlo da empresa, tais como a flutuação de preços das matérias-primas, a volatilidade do mercado de capitais e até a meteorologia.

A pressão para cumprir com as estimativas de resultados de curto prazo contribuiu para o declínio do número de empresas cotadas nos Estados Unidos nos últimos 20 anos. Os mercados de capitais orientados para o curto prazo desencorajaram operações públicas de venda de empresas com uma visão de mais longo prazo privando a economia de inovação e oportunidade. Menos empresas cotadas significam também menos oportunidades para investidores criarem riqueza através dos seus fundos de pensões e planos de reforma individuais.

Ainda que o número total de empresas cotadas esteja em declínio, mais de 100 milhões de americanos investem nelas diretamente ou através de fundos de ações. Milhões mais investem através da sua participação em planos de reforma de empresas, públicos ou de sindicatos. Muitas destas pessoas são veteranos, reformados, professores, enfermeiros, bombeiros e funcionários federais, estaduais e municipais. As empresas cotadas têm o dever de fazer a coisa certa.

A nossa posição face às previsões de resultados trimestrais não deverá ser interpretada como oposição à publicação de resultados anuais ou trimestrais. A transparência quanto aos resultados operacionais e financeiros é um aspeto essencial dos mercados americanos e apoiamos a abertura para com os acionistas relativamente a métricas operacionais e financeiras reais. As empresas cotadas americanas continuarão a publicar resultados trimestrais e anuais que fornecerão uma imagem retrospetiva da sua real performance de forma a que o público, incluindo os acionistas e outras partes interessadas, possam avaliar fidedignamente o progresso real.

A comunicação clara dos objetivos estratégicos de uma empresa – juntamente com métricas que possam ser avaliadas ao longo do tempo – será sempre essencial para os acionistas. Esta informação, no entanto, que poderá incluir a performance operacional não financeira, deverá ser fornecida num horizonte temporal adequado às necessidades de cada empresa específica e dos seus investidores.

Ken Bertsch, diretor executivo do Council of Institutional Investors (Conselho de Investidores Institucionais), uma voz que luta pelos direitos dos acionistas, apoia esta premissa: 

“Os reformados, presentes e futuros, da América merecem saber que as suas poupanças estão a ser investidas com base em métricas fiáveis e um reporte preciso. As práticas que encorajam o pensamento e o investimento no longo prazo criam valor para milhões de americanos sem que se sacrifiquem a transparência e a responsabilização que os investidores merecem”.

Reduzir, ou até eliminar, as estimativas trimestrais não vai, por si só, eliminar todas as pressões de curto prazo que as empresas cotadas americanas enfrentam atualmente. Seria, no entanto, um passo na direção certa. 

Tudo o que a América - e os seus mercados acionistas - possa fazer para nos concentrarmos no futuro e na construção de riqueza e oportunidades a longo prazo tornará o país mais forte, mais resiliente e mais competitivo. No longo prazo, isto fortalecerá a economia americana, beneficiará os seus trabalhadores, acionistas e investidores e deixará um legado geracional do qual nos poderemos orgulhar.

Jamie Dimon é Chairman e CEO da JP Morgan Chase & Co e Chairman da Business Roundtable

Warren E. Buffett é Chairman da Berkshire Hathaway Inc.