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Quando em 2010 a crise começava a dar os primeiros sinais no país, em Braga nascia a primeira e única gestora de fortunas fora de Lisboa e Porto. A Casa de Investimentos é presidida por Emília Vieira, uma mestre em Finanças, com 48 anos, que se apercebeu, desde cedo, que as pessoas "não estão preparadas para se defenderem da ganância do sistema financeiro".
Para combater o "comissionamento agressivo" e "agir no melhor interesse dos clientes", adotou a filosofia do investimento em valor, seguida pelo terceiro homem mais rico do mundo, Warren Buffett. O método exige "paciência", mas é simples: compram açoes de empresas extraordinárias quando estão baratas e, depois, vendem ao preço justo. Quando estão caras, aguardam.
A empresa, cofundada por Emília Vieira, Hugo Roque e Pedro Alves, conta atualmente com cerca de 200 clientes, sobretudo do Porto e Lisboa, mas diz ter capacidade para aceitar mais 150. Os fundadores têm conseguido um crescimento que consideram sólido, com rentabilidades anuais de 13,06% e de 85,811% em termos acumulados. No entanto, convencer os investidores de que são "um anjo da guarda do dinheiro" nem sempre foi fácil, sobretudo porque começaram em tempo de recessão e, no último ano, sentiram o medo instalado pela queda do BES.
"Iniciámos a gestão em 15 de novvembro de 2010. Nesse ano, as pessoas tinham medo, tinham a ideia enraizada de que num banco estão mais seguras. O que tentámos explicar é o que fazemos, qual a filosofia de investimentos e que não temos endividamento. Os ativos estão sempre depositados à guarda do banco, mas quem seleciona os investimentos e o que deve ser feito somos nós", relata Emília Vieira, relembrando, depois, o recuo com o fim do BES. "Destruiu a confiança dos investidores, porque tanto perderam os acionistas como os obrigacionistas", afirma.
Para esta gestora de fortunas - com uma carteira de 80 milhões atualmente - um dos principais problemas que justificam a perda de dinheiro em ações, por parte dos investidores, está na falta de formação e literacia financeira. E deixa o aviso: "É preciso que não se entregue dinheiro a papagaios, é preciso ler e não investir em nada que não entendam. O nosso trabalho é remover a ignorância. É estudar, é pensar, é ler os balanços das empresas, ver o que estão a fazer os melhores investidores do mundo e descobrir pérolas".
Atualmente, o valor mínimo para abrir uma conta na Casa de Investimentos é de 50 mil euros, mas a empresa tem já a decorrer um processo de licenciamento para criar um fundo destinado a quantias mais baixas, seguindo, igualmente, a filosofia do investimento em valor praticada por Warren Buffett, "o que também será único em Portugal", garante Emília Vieira.
Emília Vieira, a presidente da Casa de Investimentos, investe em ações que criem valor para os seus clientes. Na bolsa portuguesa encontrou o oposto: várias sociedades que destruíram dinheiro para os seus acionistas.
“Queremos clientes para o longo prazo e atuamos como verdadeiros guardiões do seu património. O nosso lema é trabalhar para que os nossos clientes sejam clientes antigos”. É desta forma que a gestora de fortunas bracarense explica a visão da Casa de Investimentos (CI), que fundou em 2010 com o objetivo de a tornar numa referência no mercado. No meio de um ambiente altamente recessivo, Emília Vieira lançou a empresa para atrair primeiro os investidores minhotos mas tendo já na mira o mercado nacional. Estudou tudo sobre a filosofia de Warren Buffett, o homem mais rico do mundo. Nos próximos 30 anos gostava de ganhar em média 15% ao ano.
Qual é a filosofia da Casa de Investimentos (CI)?
Seguimos a filosofia de Investimento em Valor, ou seja, só se investe num ativo quando este está a desconto substancial do seu valor. Analisamos profundamente os ativos, com disciplina férrea e paciência, para esperar que os resultados se materializem. Com tempo, o preço a que cotam as empresas tende a aproximar-se do seu valor justo. Nessa altura, vendemos. Só assim se conseguem rentabilidades consistentes e acima da média. Investimos com menos risco, porque compramos barato e com melhores retornos a prazo. Os custos inerentes a esta filosofia de investimentos são também menores porque implicam muito poucas transações.
A partir de que valores se pode ser cliente da CI?
A partir de 50 mil euros mas brevemente teremos um Fundo de Investimento em Valor que permitirá montantes mais baixos, para que as poupanças mais pequenas também tenham acesso e para motivar um público mais vasto para investimentos conscientes.
Os mercados financeiros podem ser uma alternativa à banca para a empresas portuguesas se financiarem, de acordo com a presidente da Casa de Investimentos, Emília Vieira. “Os empresários vão compreender as vantagens de terem acesso a fontes de financiamento mais baratas, de poderem financiar projetos de escala superior, de diversificarem o risco do negócio, atraindo novos parceiros, de terem acesso aos conhecimentos e experiência de outros investidores interessados, de não ficarem dependentes de uma só fonte de financiamento – a banca – que em tempos de crise pode colocar entraves que sacrificam a gestão de tesouraria, o investimento em novos projetos, etc.”, refere, em entrevista à “Vida Económica”, a responsável pela sociedade gestora de patrimónios mobiliários.
Vida Económica – A lógica de investimento que defende para os seus clientes é privilegiar as empresas com boa gestão e capacidade para gerar lucros. Pode dar-nos exemplos das aplicações efetuadas e dos resultados obtidos?
Emília Vieira – Na Casa de Investimentos gostamos de investir em bons ativos que produzam rendimentos e de os comprar apenas quando estão baratos. O nosso trabalho é preservar e valorizar o património financeiro dos nossos clientes. Por isso, desde a abertura, 15 de novembro de 2010, até 31 de julho deste ano, temos conseguido ganhar aos nossos clientes 17,15% ao ano, o que equivale a uma rentabilidade acumulada de 53,57%. Alguns exemplos de investimentos que fizemos foram o banco americano Wells Fargo, a farmacêutica Pfizer, a empresa dos cartões de crédito American Express, a petrolífera Exxon Mobil, a retalhista Walmart, o Bank of America, a Berkshire, entre outras. Aliás, mais recentemente, as empresas em que temos investido são do conhecimento público por via dos artigos que escrevemos no Vosso jornal quinzenalmente: a empresa do setor da saúde Johnson & Johnson, a Staples, a Sonae SGPS, a Cisco Systems, a Western Union ou a Microsoft, são alguns exemplos. Estes são resultados consistentes que nos têm permitido construir um património de confiança e credibilidade junto dos nossos clientes. O desafio agora é que sejam clientes antigos. Sabemos que investir é difícil e exige muito rigor, cautela e disciplina. Acreditamos na filosofia de investimento que seguimos.
VE – A Casa de Investimentos segue os mesmos princípios de Warren Buffet na gestão do fundo Berkshire?
EV – Sem dúvida. Investir não é fácil. Criar valor para os clientes é uma área onde abundam os conflitos de interesses. Desde a génese da criação da Casa de Investimentos, entendemos que era fundamental ter os nossos interesses alinhados com os dos nossos clientes e, segundo, era crucial uma filosofia de investimento consistente que permitisse a criação de valor com risco limitado. Warren Buffett é o melhor investidor de todos os tempos, criou uma imensa fortuna investindo em ações, seguindo o método de investimento em valor, comprando negócios excelentes quando todos têm medo e vendendo quando todos estão otimistas. Ao longo de 46 anos, ganhou para os acionistas da Berkshire cerca de 19,7% ao ano, que acumulado é 391039%. Ou seja, teria multiplicado o investimento três mil novecentas e onze vezes. É extraordinário, 100 euros passados 46 anos resultaram em trezentos e noventa e um mil euros. Para nós este é o “senhor” a seguir, se me é permitida a expressão. Devo acrescentar que há vários investidores em valor que seguimos, analisamos o que compram e vendem e porquê. Todos os dias o mercado financeiro tem milhões de opiniões diferentes. Nós ignoramos a multidão. O que é investir em valor? Investir em valor é comprar bons ativos em saldo. Devemos diversificar apenas o essencial e manter os custos de transação baixos. Gostamos de comprar máquinas de fazer dinheiro para os nossos clientes. Gostamos que, à escala de cada um, sejam donos de uma pequena parte de um negócio que todos os anos gera lucros elevados que vão sendo reinvestidos para aumentar a capacidade da empresa de crescer e gerar mais riqueza. Parte é distribuída sob a forma de dividendo. Daqui depreende-se que atualmente privilegiamos o investimento em ações. Num contexto de taxas de juro tão baixas, os investimentos de taxa fixa, como são as obrigações ou depósitos a prazo, não qualificam como investimentos em valor. Na verdade, quem hoje investe nestes ativos não está a preservar o capital. A inflação encarrega-se de destruir valor ao longo do tempo. Para ser um investidor em valor é preciso avaliar profundamente os ativos, comprar apenas quando existe margem de segurança e ter paciência para que o mercado lhe reconheça valor. Com o tempo, reconhecerá. O problema da maioria dos investidores é que, na maior parte dos casos, não avaliam o que estão a comprar e, por essa razão, ao mais pequeno contratempo, vendem. Não têm confiança se o ativo é bom ou não. Não são disciplinados e as emoções passam a comandar as suas decisões.
Embora Emília Vieira, a presidente da Casa de Investimentos, se tenha oferecido a deslocar a Lisboa, o nosso cliente-mistério preferiu visitar as instalações da sociedade gestora de patrimónios em Braga. Foi a mais longa reunião que teve: duas horas. Na altura da reunião, no final de maio, as carteiras dos clientes estavam concentradas no mercado acionista. A equipa não fez qualquer investimento em obrigações nos últimos três anos. “Também podemos investir em obrigações, se for preciso”, esclarece Emília Vieira. “Porém, as boas obrigações estão a pagar muito pouco, 1% ou pouco mais, e não queremos obrigações do Estado português. Como empresa, o Estado gere muito mal o nosso dinheiro.” A presidente da Casa de Investimentos acredita que terá de haver uma reestruturação da dívida pública, pelo menos no alargamento de prazos. “Para nós, investir em ações certas tem um risco menor do que investir em algumas obrigações.”
Emília Vieira explicou que o seu método é simples: selecionam um grupo restrito das melhores empresas do mundo, analisam- -nas profundamente e, quando as suas ações transacionam a um preço inferior ao seu valor justo, investem. Ao longo do tempo, procuram resistir à tentação de negociar. Para definir o valor justo, a equipa baseia-se na filosofia do investimento em valor, desenvolvido por Benjamin Graham e David Dodd e cujo mais conhecido praticante é Warren Buffett, a terceira pessoa mais rica do mundo, segundo a Bloomberg. Como introdução a esta filosofia, Emília Vieira ofereceu ao nosso cliente-mistério “O Livro do Investimento em Valor”, de Christopher Browne, publicado pela Caleidoscópio com o apoio da Casa de Investimento.
Em cerca de 3 anos, a rentabilidade anual alcançada pelos clientes foi de 16%, um valor líquido de todos os custos. A comissão de gestão cobrada é de 1,95%. A sociedade aceita carteiras a partir de 25 mil euros.
Quem são os analistas que estão detrás das melhores ideias de investimento em Wall Street? A edição de 21 de março do “Wall Street Journal” fazia a pergunta e deixava a resposta, sob a forma de uma lista de 14 nomes que tinham em comum a proeza de se terem revelado certeiros nas recomendações de compra. Um único analista europeu figurava na lista: Hugo Roque, 32 anos, gestor de ativos da Casa de Investimentos (CI), de Braga. Hugo é um dos oito mil analistas financeiros que regularmente colocam as suas apreciações na rede SumZero, a maior comunidade mundial de partilha de análises bolsistas. O “Wall Street Journal” fez as contas e verificou que, no consolidado dos últimos 18 meses, a carteira de Hugo registara uma valorização de 46%. O seudesempenho só foi superado por três americanos. Kyle Detwiler, o vencedor, conseguiu 58%.
Sorte de principiante? No mercado de capitais sorte é a combinação de talento com oportunidade e Hugo Roque tem cara de menino, mas é já muito rodado. Após o curso na Faculdade de Economia do Porto e uma curta experiência numa empresa de software financeiro, abraçou em 2005 na CI uma carreira que estimulava a sua vocação. Estudioso, Hugo já fez dois dos três primeiros níveis do programa Chartered Financial Analyst (CFA), a certificação internacional mais cobiçada pelos gestores de investimentos.
A distinção “foi uma surpresa, não estava nada à espera”, confessa Hugo. Mas,“é um estímulo para a nossa equipa e tem o mérito de incorporar também o resultado das avaliações sobre a qualidade das análises publicadas”. O segredo reside “no método de investimento em valor adotado na Casa de Investimentos”. Esperar que os ativos de excelência estejam a desconto no mercado, pagando um preço muito inferior ao seu valor intrínseco. “Comprar um euro por 60 cêntimos”, eis o lema de Hugo. O método exige uma dose de paciência e duas de conhecimento profundo sobre as empresas para que se “compre muito valor por pouco dinheiro”.
Johnson & Johnson
O caso da Johnson & Johnson é exemplar. Com vendas em máximos (50milhões euros), um balanço com pouca dívida (30% do capital próprio), um portefólio de produtos robusto e dividendos sempre a subir, a multinacional sofreu danos de imagem e da distração dos investidores. Há um ano, cotava nos 50 euros , agora está nos 63 euros (+23%). Desde a primeira recomendação da CI a J&J valorizou 49%, incluindo dividendos.
A Sonae SGPS foi a única empresa portuguesa que Hugo recomendou no SumZero, numa altura em que a sua cotação correspondia apenas à soma do valor da sua participação na Sonaecom e Sonae Sierra, como se o negócio da distribuição valesse zero. Com a valorização registada, deixou de figurar nas recomendações. A Tesco,que num só dia caiu 18% por ter desiludido os investidores com resultados mais fracos do que o esperado, foi outra aposta da casa de Braga que verificou que os seus fundamentais não tinham sido afetados.
“Acreditamos em empresas que se distinguem dos concorrentes e tenham vantagens competitivas, desde que a sua cotação revele uma grande margem de progressão”, explica Hugo Roque. Pfizer, Wells Fargo, General Electric, Cisco Systems ou Bank of America são exemplos de recomendações que se revelaram certeiras e que permanecem, apesar das valorizações registadas, na carteira da CI. Na banca, Hugo compara a cotação com o valor contabilístico. No caso português, o BES é o preferido. A cotação (0,73 euros) é 62% do valor contabilístico.
Nesta fase de turbulência em que acabaram as aplicações seguras, Hugo acredita que é no mercado acionista que se encontram as melhores soluções de investimento. É preciso pesquisar, encontrar as pechinchas, antecipando os movimentos dos mercados.
Um dos critérios é identificar as grandes empresas (EDP, Tesco, Total, etc.) com um histórico de dividendos generosos que superam a rentabilidade dos depósitos bancários e das obrigações.
Decálogo de analista
Um analista financeiro “deve combinar o ceticismo de quem trabalha com uma folgada margem de segurança, com a disciplina de quem não se comove com as oscilações do mercado”, adotando “uma visão persistente mas não profética”. No seu decálogo de atuação, os principais mandamentos dizem que se deve conhecer o histórico da empresa, perceber bem o que ela faz, quais as vantagens e traços distintivos relativamente aos seus concorrentes, preferir empresas geridas por gente capaz e honesta, com balanços conservadores e pouca dívida e que transacionem a preço que lhe conceda uma forte margem de progressão. É essencial ter nervos de aço e controlar os impulsos para “evitar o comportamento de rebanho”. É preciso ter coragem para “remar contra a maré e estar comprador num momento em que há um movimento geral de venda”.
Who are the hedge fund analysts behind some of the best ideas on Wall Street?
Tal como perder peso, investir é simples, mas não é fácil. Há apenas duas formas de perder peso: comer menos e fazer mais exercício. No entanto, tal revela-se muito difícil num mundo cheio de bolos de chocolate, de batatas fritas, de bons assados ou bons vinhos.
A tentação está em todo o lado. A chave para investir com sucesso também é simples: comprar bons ativos, que produzam rendimentos, quando estão baratos e mantê-los; diversificar apenas o essencial e manter os custos de transação baixos. Infelizmente este conceito tão simples não é facilmente aplicável pelos investidores que todos os dias são bombardeados com a ideia “fique rico depressa”, avisos para saírem do mercado (ou entrarem) antes que seja demasiado tarde e comentadores de televisão que gritam dicas de investimento como se tivessem a roupa interior a arder. Os investidores são muitas vezes “forçados” a tomar decisões motivados pelo medo ou pela ganância.
Este ambiente de sobrecarga sensorial seria o suficiente para impedir que o investidor aplique esta receita tão simples. Mas um obstáculo maior bloqueia o seu caminho. Nos últimos 40 anos, neurocientistas e psicólogos têm estudado o nosso processo de tomada de decisões, o que nos condiciona como seres humanos e porque fazemos muitas vezes as escolhas erradas ao longo da vida.
O que era considerado como as fundações das finanças — Efficient Market Hypothesis (Teoria dos Mercados Eficientes), Capital Asset Pricing Model (Modelo de Avaliação de Ativos Financeiros) e Modern Portfolio Theory (Teoria Moderna de Portefólios) — pressupõe que os investidores são racionais e que, por isso, tomam as decisões sempre no seu melhor interesse. A história financeira, no entanto, está recheada de exemplos que contradizem estas teorias. Basta recordar todas as bolhas e crashes que tiveram lugar nos últimos anos.
As finanças comportamentais pretendem ser uma resposta a estes dilemas. Compreendendo a forma como tomamos decisões de consumo e investimento, podemos criar o nosso próprio processo sistemático que nos conduza à tomada de decisões corretas.
Psicólogos e neurocientistas descobriram duas características que são particularmente relevantes na tomada de decisões. A primeira, é que estamos programados para o curto prazo: o ser humano tende a considerar a possibilidade de ganhos no curto prazo extremamente atrativa. Estes ganhos estimulam os centros emocionais do cérebro e libertam dopamina. Isto torna-nos mais confiantes, estimulados e, de uma forma geral, satisfeitos connosco próprios. A segunda, é a nossa tendência para adotar comportamentos de rebanho: a dor da exclusão social (por exemplo, comprar quando todos estão a vender ou vice-versa) é sentida nas mesmas partes do cérebro que sentem a dor física real. Adotar estratégias de investimentos contrárias é, portanto, um pouco como sermos espancados.
A evidência que tem sido coligida em inúmeros estudos mostra que todos nós, como seres humanos, somos afetados por desafios comportamentais — vieses mentais — que condicionam o nosso processo de tomada de decisões racionais.
Da savana africana à era digital
Porque sofremos estes vieses que tanto nos condicionam na tomada de melhores decisões? Como qualquer outra característica da nossa existência, os nossos cérebros foram, e continuam a ser, refinados por um processo de evolução que ocorre a um ritmo glacial. Os nossos cérebros estão perfeitamente adaptados para o ambiente que enfrentávamos há 150 mil anos (a savana africana). Estão menos preparados para a revolução industrial de há 300 anos e talvez ainda menos preparados para a era digital em que vivemos hoje. Por outras palavras, as nossas mentes estão preparadas para resolver os problemas relacionados com a sobrevivência e não estão ainda otimizadas para decisões de investimento. O resultado desta herança é que todos nós, sem exceção, cometemos estes erros.
Os cientistas sugerem que o melhor método para entender como o nosso cérebro funciona é imaginar que temos dois sistemas diferentes instalados nas nossas mentes: o sistema X e o sistema C.
O sistema X é essencialmente a emoção na tomada de decisões. O sistema X é a opção automática. Toda a informação passa pelo sistema X para processamento e não exige qualquer esforço. As conclusões tiradas pelo sistema X são, geralmente, baseadas em aspetos como a semelhança, familiaridade e proximidade temporal. Estes atalhos mentais permitem ao sistema X lidar com imensas quantidades de informação simultaneamente. O sistema X é um sistema de “satisfação” rápido e pouco sofisticado que tenta dar respostas aproximadamente (e não exatamente) corretas. Para que o sistema X acredite que algo é válido, pode muito simplesmente desejar que assim o seja.
O sistema C requer um esforço deliberado e tenta resolver os problemas através de uma abordagem lógica e dedutiva. Contudo, como qualquer processo lógico, verifica a informação passo a passo de uma forma lenta e em série. Para que o sistema C acredite em algo, precisa de provas.
Todos gostamos de acreditar que o nosso sistema C controla as nossas tomadas de decisão. A realidade é que o sistema X controla muito mais as nossas ações do que estamos dispostos a admitir. De facto, muito frequentemente acabamos por confiar na nossa reação emocional inicial e só ocasionalmente recorremos ao sistema C para rever a nossa decisão. Por exemplo, quando tropeçamos numa pedra, insultamos o objeto inanimado apesar de ele não ter responsabilidade alguma pelo nosso erro. Ainda assim, o sistema X, segundo conclusões de António Damásio, é indispensável à tomada de decisões. Sem emoção, o ser humano fica paralisado perante os desafios.
Neurocientistas descobriram que as partes do nosso cérebro associadas com o sistema X são muito mais antigas do que as partes associadas com o sistema C. Quer isto dizer que a necessidade da emoção evoluiu mais cedo do que a necessidade da razão. Imagine que estamos a visitar um jardim zoológico. Ao passar pela jaula dos leões, um leão salta na nossa direção; imediatamente damos um salto para trás. O sistema X reagiu para salvaguardar a nossa segurança. De facto, um sinal foi gerado assim que o nosso cérebro se apercebeu do movimento do leão. Este sinal foi enviado por dois caminhos — pelo sistema X que enviou a informação diretamente para a amígdala cerebelosa (o centro do cérebro para medo e risco) que reage com rapidez e força o nosso corpo a saltar para trás. A segunda parte do sinal é enviada para o sistema C que processa a informação de uma forma mais consciente, avaliando a ameaça potencial. O sistema C recorda que existem barras de metal que nos separam do leão. Mas, entretanto, já saltámos para trás. A emoção ganha à razão.
O que tem isto que ver com finanças?
Em que circunstâncias somos mais suscetíveis a deixar rédea solta ao sistema X? Segundo a neurociência e a psicologia há um conjunto de situações em que isto acontece: quando o problema é mal estruturado e complexo, quando a informação disponível é incompleta, ambígua e está em permanente mudança, quando os objetivos estão mal definidos, se alteram ou competem entre si, quando os níveis de stresse estão altos devido a constrangimentos de tempo e/ou porque muito está em jogo, quando as decisões dependem da interação com outros.
Estas circunstâncias caracterizam muitas das decisões que tomamos quando confrontados com oportunidades de investimento. Um dos maiores investidores de todos os tempos, Warren Buffett, diz que os investidores precisam de controlar o seu sistema X: “o sucesso no investimento não está correlacionado com o QI. Se tiver uma inteligência normal, o que precisa é de um temperamento capaz de controlar os impulsos que causam problemas às outras pessoas”.