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Esta é a primeira entrevista de Warren Buffet a um programa televisivo, corria o ano de 1985. Passados todos estes anos, a sua mensagem mantém-se actual.

A primeira regra do investimento é não perder. A segunda é não esquecer a primeira e estas são as únicas regras que existem.

Se comprarmos coisas por muito menos do que elas valem e comprarmos um grupo delas, basicamente não perdemos dinheiro.

Qual é, na sua opinião, a qualidade mais importante de um gestor de dinheiro?

É uma qualidade temperamental, não é intelectual.

Não precisamos de toneladas de QI neste negócio. Precisamos de uma personalidade estável, um temperamento que não retire grande prazer de estar com ou contra a multidão. Porque este não é um negócio em que se fazem sondagens, este é um negócio onde se pensa.

Ben Graham dizia: “Não estás certo ou errado porque 1000 pessoas concordam contigo e não estás certo ou errado porque 1000 pessoas discordam de ti. Estás certo porque os teus factos e o teu raciocínio estão certos. 

O que faz de tão diferente de 90% dos gestores de dinheiro que estão no mercado? 

A maioria dos investidores profissionais foca-se no que a ação vai fazer no próximo ano ou dois. Existem todo o tipo de métodos arcanos para tentar fazer isso. Mas eles não se vêm a si próprios como donos de uma parte de um negócio. O verdadeiro teste do investidor, do ponto de vista do valor, é se ele se importa ou não se o mercado está aberto amanhã. Se estivermos a fazer um bom investimento num título, não nos deveríamos importar se o mercado fechasse durante cinco anos. Tudo o que o “ticker” nos diz é o preço e eu posso consultar o preço ocasionalmente para ver se os preços estão extravagantemente baixos ou elevados, mas os preços não me dizem nada acerca do negócio. Os números do negócio é que me dizem algo sobre o negócio, mas o preço da ação não diz nada.

Prefiro avaliar uma ação ou um negócio e nem sequer saber o preço para não ser influenciado por este. Completo a minha avaliação e só depois olho para o preço para saber se está muito longe do meu valor.

Não acha que Omaha se encontra um pouco fora do mundo do investimento?

Bem, acredite se quiser, mas o correio também chega cá.

Recebemos jornais e todos os factos necessários para tomarmos decisões e, ao contrário de Wall Street, não temos 50 pessoas a dizer-nos que devíamos fazer isto ou aquilo.

Aprecia a ausência de estímulos…

Gosto da ausência de estimulação. Aqui temos factos, não estimulação.

Como consegue manter-se afastado de Wall Street?

Se estivesse em Wall Street, sentir-me-ia excessivamente estimulado e ouvem-se muitas coisas. Encurtamos o nosso foco e um foco curto não é propício a longos lucros. E aqui, consigo focar-me no que valem os negócios e não preciso de estar em New York para perceber o que vale o Washington Post e não preciso de estar em New York para perceber o que vale outra empresa qualquer. É simplesmente um processo intelectual e quanto menos estática existir num processo intelectual, melhor.

Qual é o seu processo intelectual?

É definir a nossa área de competência e avaliar os negócios e depois, dentro dessa área de competência, encontrar aqueles que transacionam ao preço mais baixo relativamente ao seu valor. Há muitas coisas que eu não tenho competência para avaliar. Existem, no entanto, algumas em que eu sou competente.

Já investiu numa empresa tecnológica?

Não. Na realidade, não?

Em 30 anos de investimento, nem uma?

Não compreendo nenhuma delas.

Então, estamos a atravessar uma revolução tecnológica e não vai participar?

Está a passar-me completamente ao lado. Não tenho que fazer dinheiro em todos as empresas. Todos os dias, milhares das maiores empresas americanas são-nos oferecidas a determinado preço e esse preço muda todos os dias e não temos que tomar decisões, não somos obrigados a nada. Podemos esperar até que surja uma oportunidade que compreendemos muito bem e aí investimos.

Então pode esperar 6 meses?

Posso esperar 2 anos!

Isso não é aborrecido?

Para a maior parte das pessoas, sim. E para os gestores profissionais, o tédio pode ser um problema porque, se estiverem um período de tempo sem fazer nada, os clientes começam a exigir, “faz qualquer coisa!”.

Warren, a sua abordagem parece tão simples. Porque motivo é que mais ninguém faz isto?

Acho que, em parte, é exatamente por ser tão simples. Os académicos, por exemplo, concentram-se em todo o tipo de variáveis – comprar numa terça e vender numa sexta ou em anos de eleições ou comprar apenas empresas pequenas – com base em dados que existem. E aprendem a manipular os dados e, como diz um amigo meu, para um homem com um martelo, tudo se parece com um prego.

Se me oferecerem uma oportunidade de investir num negócio, que diferença faz investir numa terça ou num ano de eleições? Não é nisto que um homem de negócios pensa quando compra empresas. Porque motivo haveríamos de pensar nisso quando compramos ações, se as ações são fatias de empresas?