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Autoria
Morgan Housel
Morgan Housel

Artigo publicado originalmente no blog Collaborative Fund a 2 de abril de 2021.

As Grandes Lições do Ano Passado

A história é uma coisa atrás da outra. Uma guerra acaba, segue-se um boom, depois um crash, depois uma revolta, depois uma pandemia, uma grande inovação, um novo boom, uma nova guerra. E assim sucessivamente, da agonia ao assombro.

Uma pergunta que surge sempre após um evento terrível é porque é que não aprendemos a lição?

As crises financeiras continuam a acontecer, uma e outra vez. Há centenas de anos que as pessoas cometem os mesmos erros nos investimentos. Os mesmos erros militares, sem parar. As personagens mudam, mas o enredo mantém-se.

Jason Zweig explicou há anos que parte da razão pela qual os mesmos erros se repetem não é porque as pessoas não aprenderam a lição; é porque as pessoas “são demasiado boas a aprender lições, e aprendem lições excessivamente detalhadas.”

Uma boa lição da crise económica da dot-com foram os perigos do excesso de confiança. Mas a lição que a maioria das pessoas levou consigo foi “o mercado de ações fica sobrevalorizado quando transaciona com um PER superior a 30”. Foi hiper-específico, por isso muitos dos mesmos investidores, que perderam a camisa em 2002, levantaram-se e foram direitos à bolha imobiliária, onde perderam outra vez.

As lições mais importantes a tirar de um grande evento são habitualmente as conclusões mais abrangentes. São estas que têm uma maior probabilidade de se aplicarem à seguinte iteração da crise.

O Covid-19 está longe de ter acabado, mas já estamos há mais de um ano nesta confusão trágica. Já aconteceu o suficiente para começarmos a perguntar-nos “que lições aprendemos?”. Se é um médico ou regulador de saúde, algumas dessas lições são hiperespecíficas. Mas para a maioria de nós, as maiores lições são abrangentes.

Algumas que se destacam:

1. Os grandes riscos são fáceis de subestimar porque têm origem em pequenos riscos que se multiplicam.

Se nos perguntarem “Qual é a probabilidade de um grupo de maltrapilhos infligir danos massivos à nação mais forte e mais militarizada do mundo?”, poderemos com razoabilidade responder, “muito baixa”. Talvez até zero.

Mas se nos perguntarem, “Qual é a probabilidade de um grupo de maltrapilhos ser radicalizado por um maníaco carismático (muito elevada), conseguir passar x-atos pela segurança do aeroporto (não é difícil), utilizá-los para matar os pilotos (fácil), assumir o controlo de um avião (razoavelmente fácil) e fazer chocar o avião contra um edifício (inevitável neste ponto), a nossa resposta poderá ser, “Como é que não conseguimos ver isto?”

É fácil ignorar os grandes riscos porque eles são apenas uma reação em cadeia de pequenos eventos, cada um deles facilmente desdramatizável. Um conjunto de coisas mundanas acontece na altura certa, na ordem correta e multiplicam-se transformando-se num evento que poderá parecer impossível, se virmos apenas o resultado final. A matemática é dura, mas a matemática exponencial é enganadora.

O mesmo acontece com o Covid.

A possibilidade de um vírus paralizar a economia global e matar milhões de pessoas parecia suficientemente remota para nem sequer ser contemplada pela maioria das pessoas. Antes de há um ano atrás, parecia o tipo de acidente imprevisível um-em-biliões que só vemos nos filmes.

Mas vamos decompor o último ano em peças mais pequenas.

Um vírus que passa de um animal para um humano (acontece desde sempre) e aquele humano interage com outros (claro). Durante algum tempo, foi um mistério (compreensível) e aparentemente as más notícias foram suprimidas (incentivos políticos, não grite fogo num teatro). Outros países pensaram que seria contido (excecionalismo, negação padrão) e não agiram suficientemente depressa (burocracia, falta de liderança). Não estávamos preparados (excesso de otimismo comum) e a reação às máscaras e aos confinamentos foi negativa (claro) o que tornou a sua aplicação esporádica (diversidade, o mesmo de sempre). Os sentimentos tornaram-se tribais (o padrão durante um ano de eleições) e a pressa de regressar à normalidade conduziu a reaberturas prematuras (negação padrão, a inevitabilidade de diferentes pessoas viverem realidades diferentes).

Cada um destes eventos isolado parece óbvio, até comum. Mas quando se multiplicam uns pelos outros, temos algo de surpreendente, até sem precedentes.

Os grandes riscos são sempre assim, o que faz com que seja demasiado fácil subestimá-los. Ao longo do último ano, fomos claramente recordados disto.

2. Muito do pessimismo injustificado resulta de subestimarmos a rapidez e firmeza com que as pessoas se adaptam.

Desde 1900, o PIB real per capita aumentou 9,3 vezes.

Imagine que estamos em 1900 e um viajante no tempo, vindo de 2021, diz, “Grandes notícias. Os vossos bisnetos serão, em média, 9,3 vezes mais ricos do que vós sois hoje.”

Ficariam em êxtase – esse tipo de riqueza deveria parecer inimaginável. Assumiriam que os seus bisnetos serão bolas de êxtase andantes, que acordam todas as manhãs estupefactos com quão ricos são.

Isto, obviamente, não descreve virtualmente ninguém em 2021.

As pessoas são espantosamente boas a adaptar-se. Ao pensar na mudança, é tentador desenhar uma linha reta e assumir que uma mudança de circunstâncias leva a uma igual mudança em como nos sentimos. Mas nunca é assim. Quando confrontadas com uma mudança, as pessoas rapidamente dizem, “OK, este é o novo ponto de partida. As nossas expectativas agora começam ali.” Em parte, é por isso que somos tão maus a fazer previsões.

E o mesmo pode acontecer ao contrário.

Se regressássemos a janeiro passado e nos perguntássemos, “que aspeto terá o mundo se ninguém puder ir para o escritório, a interação cara-a-cara acabar, todas as escolas forem fechadas, meio mundo estiver em confinamento esporádico e as pessoas proibidas de sair de sua casa, e continuar assim durante um ano inteiro?”.

Acho que teríamos exclamado, “meu deus, isto é o fim do mundo. Vai ser 10 vezes pior do que a Grande Depressão.”

O que – sem minimizar quantos empregos se perderam e negócios fecharam – na generalidade, não foi. Nem de perto. E não estou a falar apenas do mercado acionista: Os rendimentos estão em máximos de sempre.

É demasiado fácil assumir que, quando confrontadas com circunstâncias terríveis, as pessoas só conseguirão “ter” uma resposta normal. Mas nunca é assim. As expetativas são reconfiguradas, os instintos de sobrevivência libertam novos fluidos criativos, e as pessoas começam a pensar e agir de formas que não teriam considerado antes da crise.

Parte da razão pela qual as cadeias de fornecimento globais estão neste momento quebradas é porque há um ano os fabricantes avaliaram razoavelmente o estado de coisas no mundo e disseram, “bem, lá se vai tudo”. A produção foi suprimida. Mas a procura regressou mais depressa do que quase toda a gente imaginou possível.

Muita dessa procura veio de estímulos, mas aqui encontramos a mesma conclusão: seis triliões de dólares em estímulos teria parecido incompreensível há 13 meses, mas, perante um verdadeiro desastre, passaram sem grande espalhafato. Os decisores políticos adaptam-se ao que estão dispostos a fazer; os eleitores adaptam as suas expetativas.

Os negócios adaptam-se de uma forma própria. É impressionante: 2020 tornou-se naquilo que as pessoas no início dos anos 90 assumiam que iria ser o mundo em 2000:

Hoje quase todos os negócios operam num novo mundo – um mundo que era difícil de imaginar há um ano atrás.

Difícil de imaginar é o ponto chave. No último ano, fecharam muitos restaurantes, mas foram muitos mais aqueles que assumiram que teriam de fechar. No entanto, conseguiram sobreviver vendendo take away. Isto nunca tinha sido sequer opção porque não havia procura suficiente por parte do consumidor para take away até aparecer o Covid.

A história do pessimismo é tão longa quanto a do progresso, e penso que parte da razão tem a ver com o facto de ser tão fácil subestimar a forma como as pessoas se adaptam às adversidades.

3. A história só é interessante porque nada é inevitável.

Carl Richards diz “Risco é o que sobra quando achamos que já pensamos em tudo”.

Nunca encontrei uma definição melhor.

A indústria financeira passou uma década a debater qual seria o maior risco para a economia. Eram os aumentos de impostos? Impressão de dinheiro? Défices orçamentais? Guerras comerciais? Fixar as taxas de juro em 0,5% quando a taxa adequada teria sido 0,75%?

E claro que a resposta não foi nenhuma destas. Foi um vírus.

Normalmente é assim que funciona. Se olharmos para praticamente qualquer década, veremos que a notícia mais importante de todas foi algo de que ninguém falava até ao momento em que aconteceu.

Se alguma coisa aparece nas notícias, as pessoas estão a pensar sobre isso. Se estão a pensar sobre isso, estão pelo menos parcialmente preparadas para isso. E se estão preparadas para isso, o estrago que causa é mitigado quando chega. São as coisas surpreendentes que realmente movem a agulha e se tornam num dos poucos eventos em que podemos olhar para trás e dizer, “só aquilo importava”. Pearl Harbor, 11 de Setembro, Covid-19. O denominador comum mais importante daqueles eventos não é terem sido grandes; é terem sido surpresas.

Fosse qual fosse a nossa visão do mundo há um ano, hoje é diferente. Talvez a maior lição do Covid será aceitar o quão verdade isto será daqui para a frente, também.

Daniel Kahneman diz que quando experienciamos uma surpresa, a lição correta que devemos tirar daí não é assumir que o evento voltará a acontecer; é aceitar que o mundo é surpreendente. A grande lição é darmo-nos conta que voltaremos a ser afetados por coisas que não antecipávamos, de que ninguém falava, e que deslocarão a agulha mais do que a combinação de todas as coisas que tínhamos a expetativa de que viessem a acontecer.

Simplesmente, uma coisa atrás da outra.


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