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Dave Trott é diretor criativo e autor de vários livros. No seu blog, davetrott.co.uk/, Dave partilha histórias que podem ser aplicáveis a todas as áreas do conhecimento. Eis uma delas:

Ouvi esta história num programa de rádio americano.

Um pai ligou e disse que a filha ia levar o carro à revisão.

Disse também que a filha nunca questionava o que o mecânico dizia.

Ela não queria parecer ignorante, por isso, simplesmente concordava com ele.

O pai sugeriu que o programa lhe pregasse uma partida.

Eis o que aconteceu:

O apresentador telefonou-lhe e fingiu que era o mecânico.

Ele: “Olá, já vimos o seu carro e, de uma forma geral, está em boas condições.”

Ela: “Isso são boas notícias.”

Ele: “Sim, a única coisa é que é preciso mudar a água dos faróis.”

Ela: “É preciso mudar a água dos faróis?”

Ele: “Sim, é preciso substituí-la.”

Ela: “Ah, está bem, o que sugere?”

Ele: “Bem, podemos usar água da torneira se quiser.”

Ela: “E serve?”

Ele: “Aguenta no curto prazo, mas não é o ideal.”

Ela: “O que recomenda?”

Ele: “Bem, eu recomendaria água Evian.”

Ela: “Evian é melhor para os faróis?”

Ele: “É mais cara no curto prazo, mas, no longo prazo, dura mais.”

Ela: “Ok. Qual é a diferença no custo?”

Ele: “Com a água da torneira, é só custo de mão de obra, digamos vinte dólares. Com Evian, temos o custo da mão obra mais a água mineral. Chegará quase aos cinquenta dólares.”

Ela: “Isso é muito caro.”

Ele: “Bem, Evian é um produto de qualidade.”

Ela: “O que faria você?

Ele: “Honestamente, se utilizasse água da torneira, teria que a substituir dentro de alguns meses.”

Ela: “Então recomenda a opção Evian?”

Ele: “Essa é a solução que eu escolheria.”

Ela: “Bem, o senhor é que é o perito. Acho que é melhor então colocar água Evian nos faróis.” 

E a chamada termina assim.

O apresentador e o pai da mulher riram-se à gargalhada.

Todos nós nos podemos rir da ignorância da mulher.

Mas a verdade é que ela estava a fazer aquilo que todos nós fazemos.

O que ela estava a tentar fazer era não revelar a sua ignorância.

Ela não queria parecer ignorante.

Por isso, deixou-se levar pelo que o perito lhe disse.

Desde que fosse dito em linguagem convincente.

Parece-lhe familiar?

Alguma vez foi confrontado com uma proposta cuja linguagem não compreende?

Alguma vez teve receio de questionar a proposta e parecer ignorante? 

No caso de todos na sala saberem o que significam aquelas longas palavras que estão na moda e você ser o único que não sabe. 

Por isso, aceita docilmente a proposta em vez de a questionar. 

Pessoalmente, tenho uma regra simples para as propostas. 

A qualidade do pensamento é inversamente proporcional à complexidade da linguagem. 

Por outras palavras, as pessoas só usam linguagem complicada para disfarçar um mau raciocínio.

As pessoas que pensam bem querem ser entendidas por todos.

Portanto, mantêm as coisas tão simples quanto possível.

Não precisam de as engalanar.

Só as pessoas com vergonha do que estão a dizer precisam de disfarçar.

Utilizando jargão que soa credível, complexo e na moda.

Lembre-se da próxima vez que tiver receio de questionar alguma coisa.

Da próxima vez que tiver medo de parecer ignorante.

Lembre-se do que a mulher pensou.

“Não questione os peritos. Confie neles. Tenha o cuidado de não parecer ignorante.”

E acaba com Evian nos faróis.

O que tem esta história a ver com o investimento?

Da próxima vez que um banco lhe apresentar uma proposta de investimento, lembre-se da mulher que não queria parecer ignorante e acatou as instruções do falso mecânico.

Se não compreender o que lhe estão a propor, não invista.