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Autoria
Morgan Housel
Morgan Housel

Post da autoria de Morgan Housel, originalmente publicado no Blog do Collaborative Fund em 22 de outubro de 2019

Vieses Úteis

Dantes a psicologia servia para ajudar as pessoas a passarem do mal ao normal.

 

Como fazemos para que as pessoas deprimidas fiquem bem? Como tornamos uma pessoa insana sã?

 

O psicólogo Martin Seligman concluiu que isto era muito redutor. O foco nas doenças mentais e na recuperação das pessoas abaixo da média para "normal" ignoraram, pelo menos, metade da população que já é "normal".

Gostaria de recordar que a nossa profissão foi desviada, declarou Seligman em discurso aquando da sua nomeação como presidente da Associação de Psicologia Americana. A Psicologia não é apenas o estudo de fraquezas e danos. É também o estudo da força e da virtude. O tratamento não é apenas reparar o que está avariado; é também cuidar do que de melhor existe dentro de nós.

Este discurso marcou o nascimento da psicologia positiva - o ramo da psicologia que tenta tornar as pessoas normais mais felizes. Esta subtil mudança, de lutar contra peculiaridades negativas para perceber que algumas delas são úteis, foi extremamente importante.

E esta é uma lição que nós, como investidores, devemos aprender.

O interesse nos vieses mentais no investimento explodiu após a crise financeira ter demonstrado que o investimento tem tanto a ver com o comportamento dos investidores como com as folhas de excel.

Mas nem todos os vieses são maus, e corremos o risco de ficar obcecados por erros mentais, tal como os psicólogos de há 30 anos.

Alguns vieses - intuições não sustentadas por fatos - podem salvar vidas.

Viés da alergia ao absurdo: Um detetor hiperativo de absurdos que projeta ceticismo extremo relativamente a vendedores de produtos financeiros.

Podemos desligar o nosso detetor de absurdos perto de enfermeiros, pilotos e motoristas, uma vez que o incentivo para eles nos enganarem é quase zero. Mas os incentivos nos mercados financeiros podem ser tão altos que até pessoas boas e honestas se dispõem a soltar disparates e comercializar ideias loucas. Isto não quer dizer que estas pessoas são imorais; isto só realça o poder que salários chorudos e status social têm no moldar das crenças pessoais.

Abençoado seja então aquele que navega o mundo financeiro com uma capacidade incansável de detetar e evitar o absurdo. O absurdo pode tomar muitas formas, desde projeções com excesso de confiança à ginástica contabilística e fraude total. O denominador comum àqueles que são alérgicos ao absurdo não é a inteligência ou o conhecimento técnico; é a convicção de que todos os negócios são difíceis e os grandes negócios são muito difíceis e, portanto, o nível de absurdo numa proposta deve ser proporcional ao zelo do respetivo marketing.

Isto é um viés uma vez que nem todo o marketing mesmo o agressivo – é enganador e todos são vendedores, quer tenham consciência disso ou não. A verdade é que, face a vendedores, o ceticismo, quase ao ponto do cinismo, pode ser um filtro bastante útil que nos pode poupar a inúmeras dores de cabeça.

Viés da “satisfação”: uma estratégia de investimento ineficiente, mas que nos “satisfaça” baterá uma estratégia eficiente, mas que dá trabalho porque tudo o que dá trabalho será eventualmente abandonado.

Conseguir que algo funcione exige uma quantia adequada de esforço e tempo. Dedicarmos esse esforço e tempo exige que não nos aborreçamos ou cansemos. Não nos aborrecermos ou cansarmos exige que adoremos o que estamos a fazer, porque assim, as partes difíceis tornam-se aceitáveis.

É quase um distintivo de honra para os investidores afirmarem que não têm qualquer emoção relativamente aos seus investimentos. Mas se a falta de emoções face à nossa estratégia ou aos nossos ativos aumenta probabilidade de nos afastarmos deles quando eles se tornarem difíceis, o que aparenta ser um pensamento racional torna-se, no final de contas, um risco. O segredo para muitas coisas nas finanças é manter a resistência quando a maré esvazia. Amar as empresas que compramos ou a estratégia que seguimos é um viés no sentido em que não estamos alinhados com um pensamento racional. No entanto, se o apego emocional aos nossos investimentos nos permite ficar em jogo nos momentos difíceis quando seria tentador desistir esse apego é então é um dos vieses mais úteis que existem.

O mesmo se aplica ao bem documentado viés doméstico. Os investidores favorecem predominantemente as empresas do país em que vivem, ignorando o resto do mundo. Será isto racional? Não. Será isto útil? Sim. Um viés que beneficia a familiaridade relativamente à oportunidade será muito benéfico se oferecer o conforto e a confiança necessários para nos mantermos fiéis a algo que tem um futuro incerto.

Ignorância razoável – limitar de forma intencional a nossa análise de forma a evitar a paralisia da decisão num mundo onde tudo, se “escavarmos” o suficiente, é mais complexo do que parece à primeira vista.

Há uns anos, conheci um investidor que se orgulhava de não deixar pedra sobre pedra. Era, segundo ele, a sua maior vantagem. No início, pensei que esta sua análise era apenas um exercício na confirmação daquilo que ele já sabia, mas a realidade era bem pior. Ele estava atormentado pela indecisão. Quanto mais ele escavava, mais complexa se tornava a história.

É tudo assim. Brent Beshore explica-o melhor que ninguém:

Todos os negócios são desastres em funcionamento e, apesar disso, alguns são lucrativos.
A 10 mil metros de altura, o mundo é belo e ordeiro, no chão, é caótico e confuso. Nada acontece de acordo com os planos. As surpresas acontecem a cada esquina. As coisas estão constantemente a avariar. Alguém está sempre zangado. Cometem-se erros diariamente. Esperar menos que isto é estar desligado da realidade. E lembre-se, só porque temos consciência disso, a realidade não muda. Foi sempre assim, só não nos dávamos conta.

Não é possível saber tudo acerca de uma empresa porque, quanto mais profundamente a analisamos, mais concluímos que as coisas que pensávamos serem simples são, na realidade, teias intermináveis de pessoas complexas, com necessidades diferentes e em constante mutação, unidas por um objetivo partilhado precariamente.

Eventualmente, terão que ser tomadas decisões, o que significa puxar o gatilho quando sabemos que existem coisas que não sabemos e estamos confortáveis com isso. Isto não tem tanto a ver com fechar os olhos, mas com a consciência de que são poucas as variáveis que determinam a maioria dos desfechos. Colocar as probabilidades de sucesso a nosso favor é compreender essas variáveis e simultaneamente aceitar a bagagem desconhecida que vem junta.

Desconto Histórico – o passado recente é o mais relevante, uma vez que a importância do que aconteceu num passado longínquo diminui à medida que as forças culturais e legais que desencadearam um evento específico também mudam ao longo do tempo.

Muitas coisas não revertem para a média.

Não podemos comparar as valorizações dos ativos de hoje com os de 1890. Muito mudou desde essa altura normas contabilísticas, distribuição da informação, legislação, sectores de atividade, etc

O mesmo acontece em períodos mais curtos. As licenciaturas valem hoje o mesmo que há 15 anos? Hoje, muitas habilitações podem ser conseguidas gratuitamente online. Talvez valham menos, não sei.

Procurar padrões de investimento que resultam há décadas ou séculos é instintivo. Existe, no entanto, um equilíbrio entre utilizar História suficiente para garantir que não estamos a escolher apenas os factos que servem a nossa teoria e não utilizar História a mais e evitar que dependamos em excesso de tendências ultrapassadas às quais os mercados já se adaptaram. O blogger Jesse Livermore explica isto muito bem:

Alguns investidores gostam de “desprezar” esta ênfase na recência. Interpretam-na como um tipo de insulto arrogante à sagrada sabedoria do mercado que os nossos antepassados, com as suas experiências, esculpiram para nós. No entanto, pondo a hipérbole de lado, existem bases sólidas para enfatizar a performance recente, em detrimento da performance antiquada, na avaliação de dados. A performance recente é, mais provavelmente, um guia mais preciso para a performance futura, porque advém de condições causais que ainda ocorrem no sistema, ao contrário de condições que já foram ultrapassadas.

Uma boa forma de pensar acerca da História é através da lente desta citação de Voltaire: A História nunca se repete; o homem sempre. Existem verdades intemporais, acerca da forma e do motivo como as pessoas fazem as coisas, que podemos aprender com a História. Mas compreender que as coisas mudam e que devemos prestar a maior atenção ao nosso mundo moderno não deve ser visto como um desejo de ignorar a História – é, pelo contrário, provavelmente a maior lição que a História nos pode ensinar.


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