A sabedoria do retorno composto a longo prazo

A Assembleia Anual da Berkshire Hathaway, que levou a Omaha cerca de 42 mil pessoas, realizou-se no passado dia 5 de maio. Começou com o habitual filme em que participaram vedetas como LeBron James, Mayweather e Katy Perry. Warren Buffett e o seu sócio, Charlie Munger, sentaram-se no palco do Century Link para responder a questões colocadas por accionistas e jornalistas ao longo de uma sessão que costuma durar 6 horas.

Buffett iniciou os trabalhos da assembleia chamando a atenção para a importância de investir a longo prazo, salientando que há sempre incerteza e nuvens no horizonte, mas, a prazo a aposta nas empresas é a melhor forma de criar riqueza.

Warren Buffett abordou este tema, reportando os presentes a Março de 1942, pouco tempo após os EUA terem entrado 2.ª Guerra Mundial. Com a foto do jornal da altura refere o momento negro que se vivia nos Estados Unidos.

De seguida, projectado no ecrã gigante apareceu uma página branca com o número $10.000 para demonstrar que mesmo debaixo de um ambiente de extremo pessimismo e preocupação, quem tivesse investido esse valor no mercado acionista norte-americano teria hoje $51 milhões.

Com este exemplo, Buffett deixa claras duas ideias que são pedras basilares da Casa de Investimentos: a confiança no engenho humano e um horizonte de longo prazo, permitirão aos investidores beneficiar das evoluções tecnológicas e do aumento da produtividade das empresas.

Para salientar a importância de investir em ativos que geram  rendimento, acrescenta ainda que se esses $10.000 tivessem sido investidos em ouro, valeriam hoje cerca de $400.000.

Refere sempre que, não sabe o que as ações farão daqui a uma semana, um mês ou um ano. Sabe, no entanto que a 5, 10 ou 20 anos estarão consideravelmente mais valorizadas e esta é sem dúvida a melhor classe de ativos para criar riqueza e que no longo prazo o risco é também menor.

"Thank You Mr. BuffetT for making my grandchildren very rich”, Dr. Sherman Silver

Na assembleia geral da Berkshire Hathaway, que teve lugar no passado dia 5 de maio, o Dr. Sherman Silver, médico de St. Louis, colocou uma questão a Warren Buffett e Charlie Munger. O que despertou a minha atenção não foi a questão em si, mas a sua introdução. O Dr. Silver afirmou, “Sou acionista da Berkshire Hathaway e venho às assembleias anuais há 23 anos. Quero agradecer-vos por tornarem os meus netos muito ricos!”

Retorno de $100.000 Retorno Acumulado Retorno Anualizado
Berkshire Hathaway 1.345.602 1246% 12,0%
S&P 500 797.184 697% 9,4%

Imaginemos que investimos, tal como o Dr. Silver, 100 mil dólares em ações da Berkshire Hathaway, em maio de 1995. O valor deste investimento seria de 1.345.602 dólares, isto é, uma rentabilidade acumulada de 1246% e anualizada de 12%. Ao longo deste período, o Dr. Silver passou por várias crises e recuos substanciais no preço das suas ações. No entanto, confiou na qualidade dos gestores da Berkshire e que o tempo jogaria a seu favor. 

Assisti à primeira Assembleia Geral de Berkshire Hathaway em maio de 2014. “Buffett diz a mesma coisa todos os anos”, dizia um acionista da Berkshire que também assistia à Assembleia e se queixava que não voltaria a mais nenhuma. Na realidade, os acionistas voltam a Omaha todos os anos não só para ouvir a mesma coisa, mas também, tal como Sherman Silver, para agradecer a Warren Buffett e a Charlie Munger. Este é o verdadeiro capitalismo que cria riqueza para todos e não apenas para os gestores do dinheiro.

As frases fortes de Warren Buffett

Sobre o futuro do mundo

"Estou otimista sobre o futuro dos Estados Unidos, mas também estou otimista sobre o futuro da China e em certa medida do resto do mundo. As pessoas vão viver melhor daqui a 10, 20 ou 50 anos e eu não acho que isso possa ser impedido, a não ser através de armas de destruição maciça."

Sobre a igualdade de género

"Fico otimista. Fico otimista em relação à raça humana. Mas seguramente em relação ao nosso país, porque se se olhar para o que aconteceu antes da 19ª Emenda [concessão do direito de voto às mulheres] e após a 19ª Emenda, por um longo período de tempo até hoje, houve uma melhoria significativa. E sinto-me mais otimista sobre o futuro, porque acho que vai haver mais seleção por mérito ao invés de por género, raça ou herança. E acho que se houvesse um sistema onde todos os negócios passassem para o filho mais velho, ou algo parecido, acho que a sociedade progrediria muito menos do que naquele que é baseado no mérito."

Elon Musk e fossos económicos (vantagens competitivas)

"Certamente deve-se trabalhar na melhoria do seu próprio fosso e defender o seu próprio fosso continuamente. E o Elon pode provocar uma reviravolta em algumas áreas. Não acho que ele queira enfrentar-nos nos doces. E temos alguns outros negócios que não seria fácil para ele competir connosco. Olhe-se para algo como a Garanimals... não vai ser a tecnologia que vai retirar o negócio da Garanimals — talvez outra coisa que capture a fantasia das crianças ou algo parecido. Mas ainda existem alguns bons fossos."

Sobre criptomoedas

"Quando se compra algo porque se espera que amanhã de manhã se vai acordar e o preço vai estar mais elevado, precisa-se de mais pessoas a chegar do que a sair. Pode-se conseguir isso e o processo pode-se alimentar a si próprio durante algum tempo, às vezes muito tempo e atingindo números extraordinários, mas vai acabar mal e as criptomoedas vão acabar mal. Além do facto de que não há nada a ser produzido na forma de valor do ativo, também se tem o problema de atrair um monte de charlatões e equivalentes, que estão a tentar criar todo o tipo de bolsas ou o que quer que seja. É algo onde as pessoas de caráter duvidoso veem uma oportunidade para defraudar quem está a tentar ficar rico porque o seu vizinho está a ficar rico a comprar coisas que nenhum deles entende. Vai acabar mal."

Wells Fargo

"O Wells Fargo é uma empresa que provou a eficácia dos incentivos. Só que eles tinham os incentivos errados. E isso era mau... O facto de se ter problemas numa grande instituição não é único. Na verdade, todos os grandes bancos tiveram problemas num momento ou outro. E não vejo porque razão, daqui para a frente, o Wells Fargo, como empresa, tanto da perspetiva de investimento como de um ponto de vista moral, possa ser de alguma forma inferior aos outros bancos com quem compete. Eles cometeram um erro enorme, mas eu gosto do banco como investimento. Gosto do [CEO] Tim Sloan como gestor. E ele está a corrigir os erros cometidos por outras pessoas."

Sobre como se tornar um grande investidor

"O que nós fazemos não é complicado. Tem que se ser disciplinado, mas não exige um QI muito alto, ou algo parecido. Existem alguns fundamentos que são extremamente importantes. E tem que se perceber de contabilidade e ajuda sair e falar com consumidores e começar a pensar como um consumidor em muitos aspetos, mas não requer uma aprendizagem avançada."

Sobre as taxas de juros da Reserva Federal

"A única coisa que sabemos é que achamos que as obrigações de longo prazo são um péssimo investimento aos atuais níveis das taxas de juro. Por isso, todo o nosso dinheiro que está à espera para ser colocado está investido em bilhetes do tesouro, acho que com uma maturidade média máxima de quatro meses, ou semelhante."

Sobre uma guerra comercial EUA-China

"Os Estados Unidos e a China vão ser as duas superpotências do mundo, economicamente e de outras formas, por um longo, longo, longo tempo. Temos uma série de interesses comuns e, como quaisquer duas grandes entidades económicas, há momentos em que haverá tensões, mas o comércio à escala global é benéfico para todas as partes. É demasiado grande e demasiado óbvio — os benefícios são enormes e o mundo está dependente do comércio para o seu progresso — para dois países inteligentes fazerem algo extremamente estúpido. É uma situação em que ambos ganham, o único problema é quando um lado ou o outro quer ganhar um pouco demais. Mas não vamos sacrificar o mundo, não vamos sacrificar a prosperidade mundial com base em diferenças que aparecem no comércio. Pode haver alguma disputa que deixe algumas pessoas insatisfeitas, mas não acho que ou os EUA ou a China se vão envolver em algo que precipite e continue algum tipo de guerra comercial a sério.”

Sobre a política, nos Estados Unidos

"Várias vezes na minha vida, as pessoas sentiram que o país estava mais dividido do que nunca, passei por períodos em que as pessoas que eu conhecia e admirava pensavam isso porque o outro partido estava no poder e não haveria mais eleições. Se me dissessem no início que iriamos ter uma crise dos mísseis em Cuba, que teríamos armas nucleares, que iria haver um pânico financeiro, uma série de recessões e guerra nas ruas de um país dividido no final dos anos 60, perguntar-me-iam: «Porque raio está a comprar ações?» E, no entanto, a América apesar de tudo isso, com arranques e recuos, continua a avançar para a frente."

"Todos nesta sala vivem essencialmente melhor em vários aspetos que John D. Rockefeller Sr., que era a pessoa mais rica do mundo durante os meus primeiros anos. E estamos todos a viver melhor do que ele poderia almejar. Por isso, este é um país notável e temos algo muito especial. E eu adoraria ser um bébé a nascer nos Estados Unidos de hoje."

Fonte: Fortune