

Algumas Coisas de Que Tenho Quase Certeza
Publicado originalmente a 6 de janeiro de 2026 no blog Collaborative Fund por Morgan Housel
Coisas em que tenho pensado ultimamente…
Lesionei a coluna a esquiar quando era adolescente. Continua em mau estado e, ocasionalmente, dou um jeito às costas, o que me deixa em agonia durante alguns dias. Quando estou com dores, reparo que fico irritável, ríspido e impaciente. Esforço-me por não ser assim, mas a dor consegue passar por cima das melhores intenções.
Uma lição que tenho tentado aprender é que, sempre que vejo alguém a ser "parvo", a minha reação instintiva é pensar: "Que grande idiota". A minha segunda reação é: talvez tenha dores de costas.
Não é uma desculpa, mas sim um lembrete de que qualquer comportamento faz sentido se tivermos informação suficiente. Conseguimos ver as ações das pessoas, mas raramente (ou nunca) o que se passa na cabeça delas.
Eis um ponto relacionado: a maior parte do mal causado aos outros é não intencional. Acredito que a vasta maioria das pessoas é boa e bem-intencionada, mas, num mundo competitivo e stressante, é fácil ignorar como as nossas ações afetam os outros.
Roy Baumeister escreve no seu livro Evil:
Habitualmente, o mal entra no mundo sem ser reconhecido pelas pessoas que lhe abrem a porta. A maioria das pessoas que perpetra o mal não encara o que está a fazer como algo maligno. O mal existe principalmente aos olhos de quem vê — especialmente aos olhos da vítima.
Uma consequência disto é que é fácil subestimar as coisas más que acontecem no mundo. Se eu me perguntar: "Quantas pessoas querem prejudicar os outros?", responderia "muito poucas". Se perguntar: "Quantas pessoas conseguem fazer ginástica mental para se convencerem de que as suas ações não são prejudiciais ou são justificadas?", responderia… quase toda a gente.
Uma regra de ouro da matemática é que 50% da população tem de estar abaixo da média. É verdade para os rendimentos, inteligência, saúde, riqueza, tudo. E é uma realidade brutal num mundo onde as redes sociais nos esfregam na cara o "top 1%" dos momentos do "top 1%" das pessoas.
Podemos elevar a qualidade de vida dos que estão abaixo da média ou estabelecer um limite mínimo abaixo do qual ninguém pode cair. Mas, quando a maioria das pessoas espera um resultado digno do "top 5%", o resultado é uma desilusão em massa garantida.
Creio que a maioria dos problemas da sociedade são uma consequência direta da acessibilidade à habitação. A idade média de quem compra a primeira casa passou de 29 anos em 1981 para 40 anos hoje. Mas o choque que isto causa é muito mais profundo do que a habitação em si. Quando os jovens são excluídos do passo que define a vida — ter o seu próprio espaço — é menos provável que casem, menos provável que tenham filhos, têm pior saúde mental e — a minha teoria — são mais propensos a ter visões políticas extremistas. Isto acontece porque, quando não te sentes financeiramente investido na tua comunidade, é menos provável que te preocupes com as consequências de más políticas.
Todas as questões económicas são complexas, mas esta parece-me bastante simples: devíamos construir mais casas. Milhões delas, o mais depressa possível. É a maior oportunidade para causar o maior impacto positivo na sociedade.
Ouvi alguém dizer recentemente que a razão pela qual tanta gente está cética de que a IA irá melhorar a sociedade — ou aterrorizada por poder fazer o oposto — é porque não é claro que a Internet, e os telemóveis, tenham melhorado as suas vidas.
É um ponto subjetivo, mas pôs-me a pensar: imaginem se perguntassem às pessoas, 25 anos após estas coisas terem sido inventadas, se a vida era melhor ou pior devido à existência de: eletricidade, rádio, avião, refrigeração, ar condicionado, antibióticos, etc.
Acredito que quase toda a gente diria "melhor". Nem sequer haveria dúvidas.
A Internet é única na história da tecnologia porque existe uma lista de coisas que melhoraram (comunicação, acesso à informação), mas outra lista de coisas que provavelmente pioraram para quase todos (polarização política, vício na dopamina das redes sociais, menos interação presencial, menor capacidade de atenção, a propagação de desinformação).
Não existem muitos exemplos ao longo da história de uma tecnologia tão universal com tantos pontos negativos óbvios em relação ao que existia antes. Mas as feridas são tão recentes que não surpreende que muitos olhem para a IA com o mesmo receio.
Isto é mais uma esperança do que uma previsão, mas não me surpreenderia se daqui a 20 anos olhássemos para esta era de agressividade política como o fundo do poço geracional que conseguimos superar.
Há uma longa história de ciclos na forma como os americanos se sentem em relação ao governo e como os políticos se tratam uns aos outros.
A década de 1930 foi inacreditavelmente viciosa. Houve uma conspiração bem organizada para derrubar Franklin Roosevelt e substituí-lo por um general dos Marines chamado Smedley Butler, que se tornaria efetivamente um ditador. A Grande Depressão fez com que os americanos perdessem tanta fé no governo que a visão prevalecente era: "bem, mais vale tentar isto".
Teria soado absurdo se alguém dissesse na década de 1930 que, nos anos 1950, mais de 70% dos americanos diriam confiar que o governo faria a coisa certa quase sempre. Mas foi o que aconteceu.
E teria soado absurdo nos anos 1950 se disséssemos aos americanos que, daí a 20 anos, a confiança colapsaria no meio da Guerra do Vietname e do caso Watergate.
Teria soado absurdo nos anos 1970 se disséssemos que, daí a 20 anos, a confiança no governo recuperaria impulsionada pela prosperidade dos anos 90 e orçamentos equilibrados.
E igualmente absurdo se disséssemos aos americanos nos anos 1990 que estaríamos onde estamos hoje.
Os ciclos são muito difíceis de prever porque é mais fácil projetar em linha reta. O que é quase impossível de detetar em tempo real é que as mesmas forças que alimentam a opinião pública plantam as sementes da sua própria destruição. Quando os tempos são bons, as pessoas tornam-se complacentes e deixam de se importar com a boa governação. Quando os tempos são maus, fartam-se e dizem: "Basta". E estou convencido que não estamos longe disso hoje.
Tenho uma teoria sobre a nostalgia: acontece porque a melhor estratégia de sobrevivência num mundo incerto é preocuparmo-nos excessivamente. Quando olhamos para trás, esquecemos todas as coisas com que nos preocupámos e que nunca se concretizaram. Por isso, a vida parece melhor no passado porque, em retrospetiva, não havia motivo para nos preocuparmos da forma como realmente nos preocupámos na altura.












