

Porque não conseguimos adivinhar o mercado (mesmo quando sabemos o que vai acontecer)
Originalmente publicado em 20 de janeiro de 2026 no blog Of Dollars and Data por Nick Maggiulli
Não seria fantástico se soubéssemos o futuro antes de ele acontecer? Imagine o dinheiro que podíamos ganhar no mercado acionista. Isto seria um cenário de sonho, não?
Mas, e se eu lhe dissesse que isto não é verdade? E se "saber o futuro" não fosse tão lucrativo quanto pensamos? Pode ser difícil de acreditar, mas posso prová-lo com um jogo.
O Jogo do Market Timing (Adivinhar o Mercado)
Imagine que estamos a 28 de fevereiro de 2020. A pandemia do COVID-19 começou agora a espalhar-se pelo mundo e o S&P 500 está com uma queda de cerca de 12%. Perante esta incerteza, decide sair do mercado.
Mas agora imagine que um génio mágico aparece com uma proposta. O génio revela-lhe as manchetes reais de tudo o que resta da pandemia. Saberá se encontraremos uma vacina (e quando), aproximadamente quantas pessoas vão morrer e quando é que tudo isto vai terminar.
Contudo, se o génio lhe oferecer esta informação, o leitor é obrigado a decidir naquele exato momento quando irá reinvestir nas ações americanas. Não pode esperar para ver como os preços reagem. Tem de escolher uma data para reinvestir baseando-se exclusivamente nas manchetes futuras fornecidas. Aceita a oferta do génio?
Vamos fingir que sim. Como prometido, o génio revela-lhe o seguinte conjunto de manchetes (selecionadas do site do CDC – Centers for Disease Control and Prevention):
• 11 de março de 2020: Após mais de 118.000 casos em 114 países e 4.291 mortes, a Organização Mundial da Saúde (“OMS”) declara o COVID-19 como uma pandemia. A NBA cancela o resto da temporada. Nos próximos dias, a Administração Trump declarará o estado de emergência nacional e os estados começarão a implementar confinamentos para prevenir o alastramento do Covid-19.
• 17 de março de 2020: A Moderna Therapeutics inicia os primeiros ensaios humanos de uma vacina em Seattle.
• 10 de abril de 2020: Com mais de 18.600 mortes confirmadas e mais de 500.000 casos, os EUA tornam-se o país com mais mortes e casos reportados, ultrapassando a Itália e a Espanha.
• 28 de maio de 2020: O número de mortos nos EUA ultrapassa os 100.000.
• 28 de setembro de 2020: O número global de mortos atinge 1 milhão (200.000 só nos EUA).
• 16 de novembro de 2020: A vacina da Moderna revela uma eficácia de 95,4% nos ensaios clínicos. Dois dias depois, a vacina da Pfizer-BioNTech revela 95% num ensaio com 44.000 pessoas.
• 14 de dezembro de 2020: O número de mortos nos EUA ultrapassa os 300.000. Sandra Lindsay, uma enfermeira em Nova Iorque, torna-se a primeira americana a ser vacinada fora dos ensaios clínicos.
• 16 de janeiro de 2021: Mais de 23 milhões de doses foram administradas nos EUA. Os casos mundiais ultrapassam os 100 milhões.
• 21 de fevereiro de 2021: O número de mortos nos EUA ultrapassa os 500.000.
• 13 de março de 2021: Já foram administradas mais de 100 milhões de doses da vacina contra a COVID-19 nos Estados Unidos.
• 21 de abril de 2021: Já foram administradas mais de 200 milhões de doses da vacina contra a COVID-19 nos Estados Unidos.
• 3 de março de 2022: Os EUA já doaram mais de 480 milhões de doses da vacina contra a COVID-19 a 110 países.
• 1 de junho de 2022: Os EUA registaram um total de 84 145 569 infeções por COVID-19 e 1 003 571 mortes devido à doença.
• 5 de maio de 2023: A OMS declara que a COVID-19 já não constitui uma emergência de saúde pública de âmbito internacional.
Depois de ver estas manchetes, sente-se aliviado por termos descoberto uma vacina, mas também horrorizado pelo facto de mais de 1 milhão de pessoas terem morrido nos EUA.
No entanto, como aceitou a oferta do génio, tem agora de escolher uma data para reinvestir o seu dinheiro. Usando apenas as manchetes acima (e ignorando o que realmente aconteceu no mercado), que data teria escolhido? Seja sincero.
Eu teria escolhido o dia 15 de novembro de 2020. Foi o dia antes do anúncio da eficácia de 95% da vacina da Moderna. De entre todas as manchetes, é a primeira informação esmagadoramente positiva. Teria sido a escolha ideal?
Não. Teria perdido um ganho de 23% (de 28 de fevereiro de 2020 a 15 de novembro de 2020) por reinvestir tão tarde. Para quem se recorda da história do mercado, o S&P 500 bateu no fundo a 23 de março de 2020. Portanto, a resposta correta da lista acima era 17 de março de 2020.
Se tivesse reinvestido a 17 de março de 2020, teria tido um ganho de 43% até 15 de novembro:

O que aconteceu em 17 de março? Foi quando a Moderna começou os ensaios humanos. Não sabiam se ia funcionar. Ninguém sabia. Na altura, o número de mortos nos EUA era inferior a 2% do seu total final.
Ainda assim, aquele foi o melhor momento para investir.
Quando ter a resposta não ajuda
Percebe o quão insanamente difícil é o market timing? Mesmo quando lhe dou a resposta (ou seja, as manchetes do futuro), é provável que ainda assim falhe. Existem poucas áreas onde isto é verdade, mas o investimento é uma delas. Isto faz-me lembrar a ocasião em que a Jane Street Capital soube da vitória de Trump em 2016 minutos antes da CNN e, mesmo assim, conseguiu perder 300 milhões de dólares na operação.
Passei anos da minha vida a apresentar argumentos técnicos contra o market timing (ver aqui, aqui, aqui e aqui). Demonstrei (espero eu) que tais estratégias são inferiores à simples prática de comprar todos os meses (ou seja, Just Keep Buying).
Mas este artigo apresenta um argumento lógico contra o market timing. Não há necessidade de comparar uma estratégia com outra. Consegue-se perceber intuitivamente por que razão é que o market timing é um jogo impossível.
A verdade é que o mercado é uma máquina de desconto extraordinariamente complexa que incorpora toda a informação (e as expectativas sobre essa informação) nos preços quase instantaneamente. Como Barton Biggs afirmou em Wealth, War, & Wisdom:
Os mercados funcionam de forma tão eficiente porque a totalidade de toda a informação relevante, incluindo preferências subjetivas, é agregada através do mecanismo de preços numa única avaliação de mercado que, embora talvez não seja perfeita, é melhor do que qualquer número inventado por uma entidade humana ou mesmo por um computador.
É por isso que uma manchete sobre o futuro não lhe dirá muito sobre o que o mercado fará. Porque uma manchete é apenas um efeito de primeira ordem. O que essa manchete não revela é como os investidores vão responder. E como vão responder à resposta. E por aí adiante. São estes efeitos de ordem superior que não podem ser determinados a partir de um único dado isolado.
Por outras palavras, mesmo que conheça o futuro, não sabe como os outros vão reagir.
É por isso que nunca ninguém será capaz de acertar consistentemente no timing do mercado. Toda a informação que teria de saber é, por definição, incognoscível. O mercado é um sistema caótico, o que significa que mesmo a mais pequena alteração nas condições iniciais pode ter um impacto drástico na forma como ele responde à informação (o efeito borboleta). É por isto que não conseguimos adivinhar o mercado, mesmo quando sabemos o que vai acontecer.
Mas, na vida real, não sabemos o futuro. O génio com as manchetes de amanhã não existe.
Eu sei como é difícil resistir à tentação do market timing. Recentemente, até eu "pequei" um pouco.
No entanto, eu estava errado! O mercado subiu na mesma.
Embora as avaliações de IA pareçam muito otimistas (ler o artigo mais recente de Aswath Damodaran para compreender), é óbvio que não consigo ser mais esperto que o mercado. Por isso, por agora, continue simplesmente a comprar (Just Keep Buying) e obrigado pela leitura!












