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A preservação de um património financeiro requer tanta ou mais atenção do que a sua criação.

A probabilidade de alguém acertar na chave completa do Euromilhõescom apenas uma aposta, é, segundo o €uro-Millions.com de apenas 1 em 139.838.160ou seja, qualquer coisa como 0,0000000072Tendo em conta que o 1º prémio deste concurso é, em média, de 52.207.558, o que, líquido de impostorepresenta €41.766.046, aquela probabilidade traduz-se num valor esperado de premiação líquida para o dito apostador de uns magros €0,30 e isto pressupondo que é a única pessoa a ter a chave vencedora. Considerando que a aposta custa €2,50, isso representa um mínimo de €2,20 de valor esperado de perda.  

Se incluirmos todos os prémios possíveis e não só o 1º, os resultados melhoram um pouco – o  valor esperado da premiação líquida sobe, no pressuposto anterior, para €0,90, mas, ainda assim, o valor esperado do resultado final é negativo em 1,59. Mesmo num cenário hiperfavorável em que o 1º prémio é de €100 milhões, como aconteceu no jackpot da passada semana, e incluindo os diferentes prémios, os valores esperados da premiação líquida e da perda são de, respetivamente, um máximo de 1,32 e um mínimo de €1,18.  

Rapidamente se conclui assim que, com rentabilidades esperadas, mesmo num cenário de super prémio, na casa dos -47,3% no espaço de uma semana, o Euromilhões, é, para usar um eufemismo, e como outros jogos de sorte e azar, um mau investimento financeiro. Mas há importantes retornos no plano emocional a ter em conta - a participação no concurso permite ao apostador sonhar com uma melhoria significativa da sua qualidade de vida e, por conseguinte, da satisfação com a mesma. Em alturas de aperto financeiro, a perspetiva de ganhar um prémio chorudo pode mesmo ajudar a libertar ansiedade acumulada e proporcionar, ainda que momentaneamente, uma sensação de alívio e bem estar. E há ainda a considerar o sentimento, não menos importante, de estar a contribuir para o financiamento de importantes projetos e causas sociais da Santa Casa. São seguramente estes retornos que justificam a expressiva adesão nacional ao Euromilhões, pois os portugueses revelam, por contraste, uma relutância ainda significativa relativamente a outras “apostas que, embora voláteis, apresentam históricos de retorno financeiro francamente positivo no longo prazo, como é o caso das ações cotadas em mercados desenvolvidos. 

 

Ficámos a saber, na passada sexta feira, que o primeiro prémio do Euromilhões, no valor de cerca de 100 milhões de euros, saiu a um apostador em Portugal. Para esse apostador, cuja identidade é desconhecida (felizmente para ele/ela), a participação naquele concurso do Euromilhões foi obviamente, embora contra todas as probabilidades, um excelente investimento, mas este apostador enfrenta agora a necessidade de decidir o que fazer com a sua vida e com o valor a receber - 80 milhões de euros depois de imposto. Agora que atingiu um patamar de independência financeira de que possivelmente não gozava, poderá pensar em mudar ou deixar a sua atividade profissional para fazer aquilo que mais o apaixona e a que há muito gostaria de se dedicar. Poderá também pensar em canalizar uma fatia do valor recebido para ajudar familiares, amigos ou instituições com projetos sociais ou ambientais. Passa a poder suportar um estilo de vida que, muito provavelmente, antes lhe estaria vedado, pelo que é natural que também se sinta tentado em fruir de uma vida mais aprazível. 

O valor que vai receber é indiscutivelmente muito elevado, mas, como já aconteceu com outros premiados, assim como detentores de fortunas obtidas de outras formas, a miríade de utilizações potenciais do dinheiro pode conduzir a delapidação de patrimónios muito significativos e isso pode acontecer de forma relativamente rápida. A preservação de um património financeiro requer tanta ou mais atenção do que a sua criação. A aproximação que preconizamos para esse efeito não é diferente da que apresentamos no artigo de opinião “Invista em Valor. O tempo trabalhará a seu favor” da autoria de Emília Vieira, fundadora e CEO da Casa de Investimentos e publicado na última edição da Forbes Portugal e também reproduzido no blogue da Casa de Investimentos. É muito improvável que produza milionários de um dia para o outro, mas não conhecemos melhor na preservação e desenvolvimento patrimonial num horizonte temporal medido em décadas.